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Se h trs anos conhecesse Jorge Riso to bem como conheo hoje, no teria aceitado trabalhar com ele.
2012-06-13
Entrevista exclusiva de Manuela Mendes, a vereadora socialista que abdicou dos pelouros a tempo inteiro depois de ter perdido a confiana poltica de Jorge Riso.
Hoje a minha vez de lhe colocar esta questo: porque que abandonou a vereao a tempo inteiro e assumiu a ruptura com a maioria socialista na Cmara de Alenquer, pela qual foi eleita em 2009? Tive oportunidade de anunciar em reunio de Cmara as razes que me levaram a tomar essa deciso. Era evidente que a interaco entre mim e a restante maioria j no era a melhor nos derradeiros trs meses que antecederam essa tomada de deciso. Continuo a querer colaborar e continuo a ter como objectivo superior o melhor para o concelho e por essa razo estou sempre ao lado da maioria quando se trata de decidir pelo interesse de Alenquer. Chegou Cmara sem experincia poltica e comeou logo no lugar de vereadora com pelouros atribudos. Foi um perodo de adaptao difcil? Eu no tinha uma linha poltica, no tinha conhecimentos, de facto, nessa rea. Nunca tive uma escola poltica, no fui filiada em nenhum partido e tambm nunca tinha tido qualquer ligao ou orientao partidria... E agora, j sente que tem outra maturidade poltica, que est mais preparada para desafios neste contexto? Se eu lhe respondo de forma directa ainda vo dizer que a um ano das eleies eu estou aqui a preparar um qualquer projecto para 2013... Se me vai perguntar sobre isso, eu digo-lhe j que no tenho ideia absolutamente nenhuma. Por acaso nem ia colocar-lhe essa pergunta, mas era uma excelente pergunta, sem dvida. Eu respondo-lhe j: no tenho ideia nenhuma nesse contexto. Mas tambm nunca pensei na minha vida fazer parte dos eleitos de uma cmara. Nunca procurei protagonismo, dou aulas h 25 anos e j tenho o protagonismo suficiente na relao com os meus alunos. Como que surgiu esse convite, tendo em conta que no era uma pessoa da poltica activa no concelho? O convite foi feito por uma pessoa do Carregado, no pelo presidente. Eu considerei que o projecto era interessante porque podia significar uma mudana e ingenuamente achei que o facto de l estar me dava oportunidade de ter voz activa nessa mudana. Houve incompatibilidade de feitios entre a vereadora Manuela Mendes e as pessoas com quem trabalhava a tempo inteiro, nomeadamente Jorge Riso? Isso pblico. O presidente alegava que no tinha confiana poltica em mim e eu, nesse cenrio, no tinha qualquer necessidade de manter o cargo apenas por causa do vencimento, porque tenho profisso e no foi com essa inteno que aceitei integrar o projecto. Voltei escola com muito gosto. Mas por que razo Jorge Riso lhe retirou a confiana poltica? Eu sempre me mantive leal, todas as minhas decises foram tomadas tendo em conta o superior interesse do concelho, sempre tentei resolver as situaes chamando todas as partes e dialogando com todos. O porqu dessa retirada de confiana, eu no sei. A nica vez que estive contra uma deciso da maioria foi na questo do mega-agrupamento de escolas, mas essa a minha rea e eu no podia votar contra a minha conscincia, tendo noo que aquela no era a melhor opo. Mas se no houve um desentendimento poltico grave e evidente, o que que se passou ento para que Jorge Riso lhe tenha retirado a confiana poltica? S o presidente da Cmara que sentiu essa falta de confiana poltica; mais ningum mo transmitiu dentro do PS. No foi apenas a falta de confiana poltica, foi tambm a incompatibilidade de personalidades e de pontos de vista. Fui publicamente desautorizada, e por mais de uma vez, desautorizaes que eu admiti calada. Mesmo que eu tivesse tomado decises que no merecessem a concordncia do presidente, penso que publicamente no seria a melhor altura de me chamar a ateno ou repreender. Conhecia a personalidade de Jorge Riso antes de ter aceitado concorrer Cmara em 2009? No, pessoalmente no conhecia. No tinha nenhum relacionamento com ele. Acreditei naquilo que me disseram e... E saiu-lhe o tiro pela culatra, goraram-se-lhe as expectativas. Esperava ter tido mais orientao, que tivessem tido mais confiana em mim, porque eu tinha muito para dar. Eu tinha naturais dificuldades em termos polticos e no tenho pejo de admitir que pedi ajuda nesse sentido para melhorar a minha vertente poltica. Houve algum desentendimento pessoal entre si e Jorge Riso? Algum episdio que tenha extravasado a questo meramente profissional? No, nunca. O desentendimento foi estritamente poltico. Eu decidi sair porque a partir do momento em que me foi retirada a confiana poltica eu decidi que no tinha condies para continuar. Se conhecesse Jorge Riso to bem h trs anos como conhece hoje, teria aceitado integrar a lista do PS que concorreu Cmara? No. No posso mentir, no aceitaria. Na sua perspectiva, Jorge Riso tem o perfil indicado para ser presidente da Cmara nesta altura da histria, atendendo at ao estado em que lvaro Pedro deixou o concelho e a municipalidade? As dificuldades financeiras j vm de trs, as dvidas so bastantes, a herana foi muito m. As dificuldades hoje so ainda maiores do que eram em 2009 e gerir a Cmara cada vez mais difcil, porque h cada vez mais normas e regras que tm que se cumprir, talvez tambm para disciplinar as cmaras e as respectivas gestes. Foi uma forma interessante de no responder minha pergunta... Preocupa-a a situao financeira da Cmara? Para mim uma questo prioritria. Foi a minha primeira preocupao quando entrei naquela Cmara. Veja o caso da Recolte e da Valorsul, por exemplo: tem sido um acumular de dvidas. H muitos anos, a Cmara estabeleceu que seria cobrada uma taxa de 50 cntimos por consumidor para financiar este servio. Mas o gasto com a recolha e tratamento de lixo muito superior a esse valor. O valor nunca foi aumentado e sempre se encarou esse servio como uma espcie de servio social, portanto com prejuzo directo, financeiramente falando. um exemplo de m gesto, como poderia dar muitos outros. O que acha de Alenquer pagar uma factura de gua descaradamente mais cara quando comparada com os restantes municpios da regio? Todos consideramos que a gua est cara, evidentemente. Mas a partir do momento em que so assinados protocolos ou acordos de concesso, ou mesmo determinados contratos, as coisas ficam mais difceis. Depois s h um caminho, o de procurar renegociar esses acordos, mas a j no depende exclusivamente da vontade dos eleitos. Foi o que sucedeu com a questo da gua: a Cmara no tem 60 milhes de euros para indemnizar a guas de Alenquer, pelo que resta tentar renegociar o melhor para ambas as partes. O acordo de concesso que a Cmara fez com a guas de Alenquer ruinoso para o municpio e para os muncipes? Sem dvida que ruinoso. Tal como seria ruinoso o acordo que queriam levar a cabo no mbito da requalificao da Chemina. Se no fosse travado, era mais um acordo que iria endividar ainda mais a Cmara. Jorge Riso fez presso para que Manuela Mendes abdicasse dos pelouros e da situao de vereadora a tempo inteiro? No, nunca. Foi uma deciso minha. O presidente queixa-se que Alenquer a nica Cmara do Oeste que rene semanalmente, quando as restantes renem apenas de quinze em quinze dias. Considera fundamental que a Cmara matenha essa periodicidade nas reunies do executivo? Quando uma Cmara no tem maioria absoluta, como o caso de Alenquer, eu considero que h toda a necessidade de reunir semanalmente. H sempre assuntos para discutir, at vamos tendo outras reunies para alm das de segunda-feira de manh. Em quase todas as reunies h pontos extra que entram nas ordens de trabalhos e esse aspecto por si s justifica as reunies semanais. Partilha da opinio dos que consideram que seria um descalabro no fossem os vereadores da oposio a apelar conscincia da maioria em muitas decises? No sei, no sei... A importncia da oposio nas reunies de Cmara fundamental, como se viu por exemplo no caso recente da Chemina. Eu no aplicaria o termo descalabro, mas um contributo de facto essencial para o equilbrio das decises de quem tem responsabilidades na gesto. Viu com bons olhos a opo de Sandra Saraiva de ter virado costas coligao e praticamente tomado o seu lugar na maioria socialista? Eu respeito a opo da vereadora, achou que era o melhor para si prpria, mas eu no teria feito o mesmo. No concordei, mas respeito.
Nuno Cludio
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