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Porqué no te callas?

2012-06-13

 

Opinião de Ana Militão - Edição 223

 

A Grande Reportagem emitida pela SIC no domingo, 3 de Junho, que se debruçou sobre as obras públicas e as famigeradas parcerias publico-privadas, constitui um doloroso testemunho da demência colectiva que assolou o país nos últimos anos. A euforia dos fundos comunitários, dinheiro a rodos que entrou por Portugal dentro praticamente sem controlo, cegou por completo os governos e os autarcas. Milhões de euros foram desperdiçados em obras faraónicas e perfeitamente inúteis: pavilhões desportivos que ninguém utiliza porque as terras não têm gente suficiente ou que estão fechados a sete chaves para não se estragarem, relvados sintéticos em localidades onde só residem idosos, auto-estradas onde ninguém circula, escolas que mais parecem hotéis de luxo... Muitos anos e muitos milhões depois, o certo é que o país está na mesma, perdão, está pior. Não me venham cá com a treta dos "números" e das "estatísticas", porque a verdade é que não praticamos mais desporto, não estamos mais saudáveis, não temos mais produtividade, nem mais empresas, nem melhores salários, o Interior continua deserto e certamente não estamos mais bem educados e formados (temos mais licenciados, mas com a qualidade do ensino em Portugal e com as facilidades que todos conhecemos isso vale pouco mais que zero). A realidade não é a que nos tentam vender todos os dias. A realidade é que de país europeu temos muito pouco; estamos mais próximos do terceiro mundo e daqueles países de cegos onde quem tem só metade de um olho é rei absoluto. Mas quando ouço compatriotas dizerem que ter um pavilhão desportivo "é bom para a terra mas eu nunca lá entrei" percebo que só temos os políticos idiotas, incompetentes, corruptos, desonestos e labregos que merecemos.

Monstruoso foi também o que saiu da boca do senhor António Borges quando disse que "baixar salários em Portugal não é uma política, é uma urgência". Este fulano, que foi despedido do FMI por ser ainda mais incompetente do que os incompetentes que por lá pululam e que é um funcionariozeco irrelevante da Goldman Sachs, acha que lá porque passou três dias a trabalhar no estrangeiro já pode vir para cá dizer todo o tipo de dislates. E era isto que queriam para ministro, qual salvador da pátria, veja-se bem! Ah, e falta dizer que esta cavalgadura recebe do governo português 25 mil euros por mês livres de impostos para dizer umas coisas, provavelmente deste mesmo calibre, sobre a nódoa que são as privatizações, para além do que aufere como administrador da Jerónimo Martins (parabéns à empresa que pode contar com tão iluminado gestor!). Posto isto, senhor António Borges, primeiro trate de baixar o seu salário e depois, por favor, esteja calado. Seriam dois inestimáveis favores que faria a esta tão desgraçada pátria.

Por falar em monstruosidades e em gente que tão boas oportunidades perde para estar calada, o que dizer daquela monstruosa frase de Pedro Passos Coelho segundo a qual o desemprego é uma oportunidade? É quase como dizer a um faminto que passar fome é bom porque assim não fica obeso e portanto não terá problemas cardiovasculares! Será que esta gente não se cansa de dizer disparates, uns atrás dos outros? Senhor Passos Coelho, o desemprego é uma coisa que se nos cola à pele todos os dias, mesmo quando sabemos que não estamos sozinhos; que não nos deixa dormir; que nos faz passar por humilhações quotidianas; que nos diminui perante nós próprios; que nos faz pensar que somos inúteis e não prestamos para nada; que não nos sai nunca da cabeça, mesmo quando nos tentam animar; que nos deprime profundamente, mesmo quando somos fortes; que nos deixa num beco sem saída; que nos faz questionar tudo e todos; o desemprego é uma coisa que desespera e nos atira para o buraco. Claro que o senhor não pode saber isto porque nunca passou por tal coisa na sua vida. Do mesmo já eu não posso ser acusada. Eu sei o que é querer trabalhar e não conseguir arranjar trabalho. Por isso a sua frase feriu-me e ofendeu-me profundamente. Eu sei que isso pouco lhe importa, ou não seria primeiro ministro. Mas fica pelo menos o desabafo, a juntar a tantas outras histórias que se ouvem por aí.

Ana Militão

 

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