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Do Ribatejo, mirando o Douro

2009-05-05

 

Opinião de António Nobre - Abril de 2009

 

No passado dia 17 de Abril fui um dos que respondeu presente ao convite do Nuno Cláudio para assistir ao lançamento do seu novo trabalho discográfico. Tal como referiu Tó Zé Brito (um dos oradores convidados pelo autor) na sua intervenção, como ele também eu, cheguei a colocar a hipótese de não poder comparecer, face ao agitado dia que tinha pela frente, com a agenda totalmente preenchida.
Confesso que tive que proceder a algumas alterações para não faltar, até porque o convite só me chegou no dia anterior. No entanto, pela consideração que nutro pelo autor, que a pulso tem construído a sua vida e carreira jornalística, possuindo aí como noutras áreas, nomeadamente na música, um invulgar dom criativo e artístico, uma coragem e espírito de iniciativa notável, não poderia estar ausente. Não poderia faltar, também por saber por experiência feita, quão importante é para quem cria algo de novo, a presença daqueles para quem o envio de um convite, terá certamente um significado especial.
Tal como foi dito ali, naquele magnífico Centro Cultural do Cartaxo, o tempo é algo de muito importante para todos nós, de um modo geral, mas o tempo que despendemos para apreciar uma criação de um amigo nosso, por ser infinitamente inferior ao tempo que ele despendeu para criar algo que nos vá agradar, nunca será tempo perdido e, no ajuste de contas, quem fica a ganhar somos nós.
Pelo caminho de regresso a Alverca do Ribatejo, onde vivo actualmente, vinha comentando com a minha mulher, que fez questão em me acompanhar, que tinha saído daquele pequeno momento, um pouco mais rico do que tinha entrado. Tivemos a oportunidade de apreciar os contornos do lançamento de um disco em mirandês, uma das duas línguas oficiais portuguesas. Quando cheguei a casa perguntei aos meus filhos se conheciam o mirandês. "Claro que conhecemos pai; é o dialecto falado em Miranda do Douro". Tal como a boa parte dos portugueses, também a eles e a mim próprio terá passado despercebido que o mirandês não é um dialecto, porque se tornou há dez anos atrás a segunda língua oficial do país, a par do português, por Lei da Assembleia da República.
O professor António Bárbolo Alves, tradutor e adaptador das letras para o mirandês, fez questão de apresentar em meia dúzia de minutos a língua e as suas origens, relevando que tem raízes leonesas e é falada desde tempos remotos na região de Miranda do Douro. Decidi naquele momento ser um dos próximos visitantes deste concelho, depois de ouvir não só aquela primeira intervenção mas também ter sido tocado pela contagiante simpatia do vereador da Cultura do município mirandês que fez uma apresentação na sua língua nativa, bem compreendida sem haver necessidade de recurso a tradução, apesar de diferente tanto na sintaxe, como na pronunciação.
O presidente do município cartaxeiro enalteceu a criatividade e inteligência do autor, sendo clara a simpatia e admiração que por ele sente. Fez também questão em honrar a conhecida hospitalidade do Cartaxo. Antes de ir embora pude participar pela primeira vez, mesmo que um pouco à pressa, num Cartaxo de Honra. Ideia inspirada noutros eventos há muito praticados no Porto e na Madeira, promovendo os vinhos dessas regiões, sendo inteiramente justificada a sua criação no Cartaxo, face à qualidade e fama do seu vinho.
Brindemos pois ao sucesso deste trabalho e brindemos também ao apoio que as autarquias portuguesas ainda vão dando a quem se atreve a ser diferente e criativo. Independentemente do valor material desses apoios, será sempre recompensador saber que os nossos autarcas, pelo menos uma boa parte deles suponho, são pessoas sensíveis, cultas, solidárias e gente que procura dar o melhor de si em prol da sua comunidade. E não terá sido por acaso que também marcou presença neste evento o presidente da Câmara Municipal de Azambuja, município de onde o autor é originário.
Enfim, um final de tarde primaveril, muito menos cinzento do que faziam adivinhar as carregadas nuvens que se acotovelavam lá por cima, disputando entre si as gotas de chuva miudinha que iriam despejar cá para baixo. Diria mesmo, um final de tarde cheio de brilho, luz e inspiração. Quanto ao som... muito bom. Parabéns Nuno Cláudio!

António Nobre

 

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