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    seta_branca    Entrevistas

 

«Até 74 vivemos da mama do Ultramar, depois foi a mama revolucionária, após 85 veio a mama europeia e agora acabou-se a mama.»

2010-01-28

 

Joaquim Ramos, o presidente da Câmara de Azambuja.

 

«Até 74 vivemos da mama do Ultramar, depois foi a mama revolucionária, após 85 veio a mama europeia e agora acabou-se a mama.»

 

O grande desafio que se coloca a um presidente de câmara modificou-se, de algum modo, neste início de década, em virtude das grandes alterações que o mundo e a sociedade dos homens conheceram nos últimos dois anos?
Os desafios são, na sua essência, os mesmos. O que se complicou foi o grau de dificuldade com que nos deparamos ao enfrentá-los. Hoje em dia encaro esta missão com muito mais exigência do que há quatro ou oito anos, já que houve, como disse, alterações radicais em termos de organização da sociedade, a globalização passou a ter efeitos imprevisíveis na nossa sociedade, os desafios lançados pelos problemas ambientais ganharam um impulso muito significativo. Ser presidente de câmara hoje encerra um maior grau de exigência.
Esta nova realidade alterou a essência do discurso do presidente de câmara para com o munícipe? Acabaram-se os discursos decalcados do passado, porque as populações exigem outra postura e o despertar para novas exigências?
Alterou significativamente. Nós, que exercemos cargos de responsabilidade política, temos que ter um discurso pedagógico virado para esse tipo de situações. Nós, portugueses, temos alguma tendência para privilegiar o curto prazo e a satisfação imediata de algumas necessidades sem, no entanto, nos preocuparmos com o médio e longo prazo. O exercício da política também exige essa função pedagógica: há que estabelecer prioridades, há que perceber que nem tudo é atingível num curto prazo e que particularmente em épocas de crise há determinadas coisas que são prioridades menores e há que abdicar das mesmas em nome do futuro das novas gerações.
Sempre foi bastante realista na análise que fez ao estado do país ao longo dos últimos anos, aquando das entrevistas que tive oportunidade de realizar consigo. Volto a pedir-lhe a mesma análise, neste momento particularmente sensível da economia portuguesa e mundial.
Eu não sou um apóstolo da desgraça. Nós temos capacidades para ultrapassar a crise em que nos encontramos. Mas confesso que começo a ficar relativamente preocupado pelo facto de não ver as principais forças da nossa sociedade mobilizadas para esse fim - e não me refiro apenas às forças políticas; falo também de instituições, de empresários, trabalhadores e todo um conjunto de entidades que fazem a nossa sociedade. Não vejo mobilização como considero que o grau de dificuldade exige e acho que nesta altura temos que fazer duas coisas: por um lado, abandonar o discurso da desgraça e fazer o discurso da esperança; por outro lado, deixarmos de potenciar as coisas que nos dividem como povo e procurarmos as coisas que nos podem conduzir a todos num desígnio comum. Quanto a mim, estas são duas condições essenciais para ultrapassarmos esta crise profunda, que tardam em aparecer na sociedade portuguesa.
Mas Portugal tem uma despesa pública cada vez mais elevada, em contraste com a receita, cada vez mais reduzida, uma vez que a economia não gera receitas de impostos. Como é que se contorna esta situação?
Não é preciso ser economista para analisar essa situação sob o ponto de vista da matemática. Se a receita decresce e a despesa aumenta, só há uma solução, que é reduzir a despesa. Aumentar a receita por via do aumento de impostos é uma situação incomportável. Manter ou aumentar o défice também é incomportável. Portanto, só há uma forma de actuar perante a situação a curto e a médio prazo, que consiste em reduzir os custos. Reduzir a despesa pública, a despesa de cada um de nós.
É possível?
Tem que ser. É abdicar de algumas situações que não constituem uma prioridade de primeiro grau. A sociedade portuguesa tem que se convencer de que tem que fazer opções. Não pode continuar como até agora a viver à custa de uma qualquer mama. Até 74 vivemos da mama do Ultramar, depois vivemos da mama revolucionária, a seguir e após 85 vivemos da mama europeia e agora acabou-se a mama. Temos que definir uma estratégia de aumento da produtividade para podermos ter, por direito próprio, acesso às mesmas coisas que temos tido até aqui.
O facto de os munícipes andarem tão ocupados com as dificuldades da vida e com as desgraças do mundo alivia a pressão que exercem sobre os autarcas em relação aos problemas do concelho?
As pressões são sempre muitas, e é por essa razão que falo do papel pedagógico e da necessidade de fazer compreender às pessoas que há aspirações que não podem ser satisfeitas no imediato. Naturalmente que há questões que são prioritárias independentemente da conjuntura que se atravessa, como é o caso das questões ambientais, e nós em Azambuja temos a estratégia bem definida para, no prazo de três anos, termos a situação completamente solucionada no concelho. Claro que há outras coisas, importantes mas não fulcrais para a vida das pessoas, que há que perceber que a prazo tem que se abdicar delas.
Azambuja está situada em cima de uma falha sísmica e em 1909 um sismo destruiu Benavente. O drama do Haiti veio avivar certas memórias e leva-me a perguntar-lhe se Azambuja está preparada para enfrentar uma situação semelhante.
São sempre coisas imprevisíveis. O que lhe posso dizer é que as pessoas com quem habitualmente falo, ligadas à protecção civil nacional e regional, manifestam a sua percepção de que os serviços de protecção civil no concelho estão bem organizados e têm capacidade de resposta, que aliás foi visível recentemente, aquando dos temporais de Dezembro.

Nuno Cláudio

 

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